Lisboa preserva moldes históricos da calçada artística portuguesa em projeto de investigação municipal

Lisboa preserva moldes históricos da calçada artística portuguesa em projeto de investigação municipal

A Unidade de Intervenção Territorial do Centro Histórico da Câmara Municipal de Lisboa está a desenvolver um projeto de salvaguarda da Coleção de Moldes da Calçada Artística Portuguesa, considerado determinante para assegurar a continuidade de um dos principais símbolos visuais da cidade. O trabalho permitiu já inventariar cerca de três mil peças originais, num universo que ultrapassa os cinco mil moldes.

Carla Quirino - RTP /
Carla Quirino - RTP

Num discreto antigo armazém municipal, em Alvalade, longe do olhar apressado de quem atravessa diariamente as ruas de Lisboa, conserva-se um dos mais singulares acervos patrimoniais da cidade: a coleção de moldes da calçada artística portuguesa. 

São cerca de cinco mil peças — três mil delas inventariadas como originais — que, mais do que ferramentas de trabalho, constituem hoje testemunhos materiais de uma arte urbana que desenha fragmentos do rosto identitário da capital.

“É um verdadeiro bordado, um croché”, descreve à RTP a historiadora Sofia Tempero, que integra a Unidade de Intervenção Territorial do Centro Histórico da Câmara Municipal de Lisboa (CML), evocando a delicadeza de certos padrões, alguns já desaparecidos, e que outrora ornamentavam a cidade. A metáfora não é inocente: a calçada artística portuguesa, feita de pequenos blocos de pedra cuidadosamente talhados e encaixados, constrói-se por repetição, tal como um tecido paciente de pontos e ritmos.

Molde de borboletas. Algumas localizam-se na rua Lopes Mendonça | Carla Quirino - RTP

A coleção, composta maioritariamente por moldes em madeira, integra peças utilizadas desde o século XIX na execução de pavimentos artísticos e constitui, segundo a equipa de gestão, “a fonte primária” para compreender esta prática.
Das origens urbanas à linguagem estética
A história desta forma de pavimentação remonta à primeira metade do século XIX, segundo o historiador de arte Rui Matos, que também integra este grupo de trabalho.

“A Calçada Artística Portuguesa nasce, por volta de 1841, no Castelo de São Jorge”, explica o técnico superior da Câmara Municipal de Lisboa. O projeto, associado ao governador Eusébio Furtado, terá recorrido a mão-de-obra prisional, prática repetida anos mais tarde no célebre calcetamento do Rossio (1848-49).

Contudo, Rui Matos sublinha que esta narrativa tradicional poderá ocultar influências anteriores. “Há elos perdidos. Palácios do século XVIII já utilizavam basalto e calcário para criar desenhos para pavimentos”, refere, apontando para uma continuidade estética que antecede a formalização da calçada artística como linguagem urbana.

O grande impulso chega com a modernização oitocentista da cidade, no contexto das políticas de obras públicas do chamado fontismo. Inspirada pela transformação de Paris sob a direção de Haussmann, Lisboa entra numa nova fase de expansão e embelezamento urbano. “A calçada artística integra-se nesse movimento: procura transformar o espaço público, quase desmaterializá-lo”, afirma Matos.

Praças emblemáticas como o Rossio, a Praça de São Paulo ou a Praça Duque da Terceira tornam-se laboratórios desta linguagem visual, concebida para ser "apreciada em grandes áreas urbanas" explica a equipa.
Desenho e pavimento de Calçada Artística no Rossio de Eusébio Cândido Pinheiro Furtado. Exemplo de informação que se encontra cruzada na base de dados do projeto da Unidade de Intervenção Territorial do Centro Histórico da CML | CML
Do desenho à pedra: um processo em três fases

A execução da calçada artística obedece a um processo que se desenvolve em três fases: o desenho, a criação dos moldes e a aplicação no terreno.

“A calçada artística portuguesa, grosso modo, tem três fases: a concepção, o molde e a execução”, explicou Rui, da equipa de gestão. “Primeiro vem o desenho — feito por artistas ou autores anónimos — depois os carpinteiros produzem os moldes e, por fim, os calceteiros executam a calçada”, continua.

Apesar do papel central na construção dos pavimentos, os calceteiros normalmente não intervêm na criação dos desenhos nem na produção dos moldes. “Os calceteiros são um elemento fundamental, mas são também o elo mais frágil desta cadeia, Executam um trabalho extremamente exigente, que é também uma forma de arte" sublinhou a equipa.

Pedro Miranda, arqueólogo da mesma unidade municipal, lembra que a durabilidade da calçada depende tanto da qualidade inicial como da sua manutenção. “A Praça do Império é um exemplo: nunca foi intervencionada e mantém-se em excelente estado. Noutras zonas, a abertura de valas para infraestruturas compromete o desenho original”, explica.

Praça do Império, vista aérea com a Calçada Artística Portuguesa assinada por José Cottinelli Telmo | CML
Uma investigação que revelou novos arquivos
O projeto partiu inicialmente da organização e inventariação do acervo existente, mas evoluiu para um trabalho de investigação mais amplo, que passou pela recolha e sistematização da iconografia da calçada artística em Lisboa.

“No nosso projeto fizemos uma recolha exaustiva de todos os desenhos da calçada artística portuguesa em Lisboa, nos nossos arquivos e fora deles”, explicou Rui.

Essa investigação conduziu a descobertas relevantes, incluindo desenhos originais dispersos por vários arquivos. “Descobrimos, por exemplo, os desenhos de Abel Manta para os Restauradores”, acrescentou.


Desenhos e pavimento de João Abel Manta para a Calçada Artística Portuguesa dos Restauradores. Grande parte destes moldes estão desmontados | Imagem adaptada/CML

A recolha permitiu ainda identificar o desenho original do Rossio, encontrado no Porto por uma colaboradora da equipa. “Foi uma pista de investigação que surgiu no âmbito do projeto e que poderá revelar ainda mais informação no futuro”, referiu a equipa de gestão.
Armazém esquecido transformado em arquivo patrimonial

O núcleo do projeto assenta num antigo armazém municipal em Alvalade, onde desde 1952, eram guardados moldes, ferramentas e materiais utilizados pelas brigadas de calceteiros.

Essa coleção de moldes, hoje em processo de inventariação e estudo esteve no entanto esquecida nessa arrecadação durante décadas. Quando a Unidade de Intervenção Territorial do Centro Histórico chegou ao local, em 2019, deparou-se com um cenário caótico e em em avançado estado de degradação.
Um dos corredores do armazém, atualmente organizado com alguns dos moldes expostos. As estantes são as originais da arrecadação de 1952 | Carla Quirino - RTP

“Os moldes eram para trabalhar, não eram peças artísticas — serviam para executar a calçada e iam e vinham do terreno" por isso acabavam por ser materiais pouco cuidados.

“Retirámos três camionetas de lixo”, recorda Rui Matos. “Havia de tudo: eletrodomésticos, pneus, animais mortos. No meio disso, estavam os moldes. Percebemos rapidamente que não bastava arrumar — era necessário criar um projeto de investigação", sublinha.

O trabalho de recuperação foi manual e exaustivo. Cada peça foi limpa, identificada, fotografada e, em alguns casos, digitalizada em 3D. “Criámos um sistema de registo com a sigla CAPM — Calçada Artística Portuguesa, Molde — e um número de identificação”, explica a equipa.

A investigação levou também à descoberta de desenhos originais até então dispersos por diferentes arquivos, como a Fundação Calouste Gulbenkian ou o Arquivo do Porto. Entre os exemplos mais relevantes estão os desenhos de Cottinelli Telmo para a Exposição do Mundo Português de 1940.

Praça do Império. Desenho, fragmento do molde do signo de Carneiro, um dos elementos que constituem o pavimento da autoria de José Cottinelli Telmo. É um dos muitos exemplos da combinação das três informações - desenho, molde e localização - reunidas na base de dados construída pela equipa da Unidade de Intervenção Territorial do Centro Histórico | Imagem adaptada CML/Carla Quirino - RTP
Inventariação peça a peça e criação de base de dados
A intervenção passou pela limpeza, conservação e inventariação integral do acervo. “Cada uma das cerca de cinco mil peças passou pelas nossas mãos: foram limpas, fotografadas e registadas”, acrescentou a equipa.

Destas, cerca de três mil foram apontadas como originais e organizadas numa reserva. A cada molde foi atribuído um código de identificação e procedeu-se ao registo fotográfico frente e verso, ao desenho e, em alguns casos, à digitalização em 3D.

Molde digitalizado da estrela e o resultado final do pavimento de Calçada Artística Portuguesa junto à Ermida de Santo Amaro | Imagem adaptada/ CML

Paralelamente à preservação física dos moldes, a equipa desenvolve uma base de dados que articula quatro dimensões: iconografia, moldes, padrões e localização georreferenciada das calçadas. “Queremos que tudo esteja cruzado: o desenho, a execução e o estado de conservação”, explica Pedro Miranda.

O sistema, ainda em desenvolvimento, permitirá aos serviços municipais localizar intervenções, identificar padrões e planear ações de conservação. “O objetivo é ter tudo georreferenciado. Os calceteiros poderão aceder ao sistema, identificar uma calçada, verificar o estado de conservação e agir em conformidade”, explicou Pedro. No entanto, a plataforma permanece ainda em fase interna: “está praticamente pronta, mas ainda em back office”. Muito em breve a base de dados será tornada pública.

Na base de dados pode encontrar-se o desenho da caravela da Praça Marquês de Pombal ou ainda o molde digitalizado de um dos padrões da Av da Liberdade | Imagem adaptada /CML

A equipa afirma que este trabalho tende a estar sempre crescer perante a quantidade de dados ainda desconhecidos. Por exemplo, ainda “não sabemos quantas calçadas existem em Lisboa. Estimamos cerca de 450, mas não há um inventário completo”, admitem os investigadores.  E A ambição vai além da cidade. “A base está preparada para ser utilizada a nível internacional — Brasil, Macau, Nova Iorque”, acrescentam.
Projeto ambiciona centro interpretativo
Mais do que preservar o acervo, o projeto municipal procura criar uma infraestrutura de investigação e divulgação de um património feito de pedra, memória e gestos.

“O objetivo inicial era transformar este espaço num centro interpretativo da calçada artística portuguesa, articulando a investigação com o trabalho dos calceteiros”, explicou a equipa de gestão.
A proposta prevê um espaço híbrido, simultaneamente museológico e operativo, onde o saber-fazer possa ser transmitido e aplicado.

No âmbito deste trabalho contínuo de transmissão de conhecimento e de envolvimento com a comunidade, os investigadores apelam a todos os interessados no tema: quem possua imagens ou fotografias antigas de ruas com calçada artística e pretenda partilhar informação poderá contactar diretamente a equipa através do e-mail uct.uitch@cm-lisboa.pt .

A Unidade de Intervenção Territorial do Centro Histórico da Câmara Municipal de Lisboa está a desenvolver um projeto de salvaguarda da Coleção de Moldes da Calçada Artística Portuguesa, considerado fundamental para assegurar a continuidade de um dos principais símbolos visuais da cidade. Até ao momento, foram já inventariadas cerca de três mil peças originais, num conjunto que ultrapassa os cinco mil moldes. Atualmente em processo de inventariação e estudo, esta coleção permaneceu durante décadas esquecida num armazém municipal em Alvalade. O acervo, maioritariamente de madeira, integra elementos florais e figurativos, como sereias, caravelas e animais, alguns de grandes dimensões — como o “olho” de um peixe que, isoladamente, evidencia a escala monumental de certos desenhos urbanos.


Preservar para o futuro
Atualmente, está em curso a candidatura da “Arte e Saber‑fazer da calçada portuguesa” a Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, onde um dos pilares é, naturalmente, a calçada artistica portuguesa. Foi formalmente submetida à Comissão Nacional da UNESCO em março de 2025, após cerca de três anos de preparação, envolvendo mais de 50 calceteiros, oito municípios e mais de duas dezenas de instituições.

Para já a "Arte e Saber-Fazer da Calçada Portuguesa" está oficialmente inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial desde 2021.
 Desenho e implantação do pavimento da Praça do Município. Autor do Projeto é Eduardo Nery. | Imagem adaptada /CML

O processo é liderado pela Associação da Calçada Portuguesa e insere‑se numa estratégia de valorização e salvaguarda de uma prática tradicional considerada em risco.

Apesar da sua relevância patrimonial, e ser um dos principais cartões de visita de Lisboa, a calçada artística enfrenta problemas estruturais de gestão e valorização. “Aquilo que todos reconhecem como ex-líbris de Lisboa" pode está em risco, sobretudo devido à escassez de calceteiros — “dos mais mal pagos da estrutura”, argumenta a equipa da CML.

Se esta candidatura representa um passo decisivo para valorizar um todo,  para já e em termos práticos, o principal legado do projeto da Unidade de Intervenção Territorial do Centro Histórico da Câmara Municipal de Lisboa reside na preservação física dos moldes.

“Daqui a 50 anos ninguém vai saber quem nós somos, mas estas peças poderão continuar a existir”, afirmou Rui. “Quando chegámos, estes materiais estavam a degradar-se rapidamente. Hoje estão inventariados e protegidos”.
Vista de cima de um dos corredores da reserva de moldes | Carla Quirino - RTP

Mais do que um arquivo técnico, a coleção constitui um testemunho material de uma arte urbana única, que continua, diariamente, a ser percorrida, muitas vezes sem ser olhada. Como remata Sofia Tempero, “nós passamos por cima dela todos os dias — e raramente a vemos”.



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